sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A velhice do mar

Cenário.
Outono. As colheitas e as vindimas.A queda das folhas.
A rentrée dos políticos, depois das férias imerecidas.
Sentado num dos muitos passadiços junto ao mar, onde tudo passa, os pescadores, o pessoal do BTT, os atletas de trazer por casa, os simples caminheiros, os que apenas querem baixar o colesterol, os românticos, os namoros firmes, os namoros de ocasião, os potenciais suicídas que não têm coragem de se atirar ao mar, os voyeurs ou mirones e as pessoas como eu, que não tendo nada que fazer em casa, num dia de folga, resolvem dar corda aos sapatos e sentir o ar do mar, o sol envergonhado por saber que quando nasce não é para todos e ainda aquela brisa vinda no norte, mas longe da tradicional e intensa nortada que me irrita no Verão, quando me arranca o guarda-sol e o corta-vento mal resiste à projecção de areia que me penetra nos olhos e decapa a pele mais sensível.
Até tu vento, me atiras areia para os olhos, não chegava a corja e os energumenos que me tentam embalar com a correcção do défice, da inflação e da crise da bolsa.
Estava eu distraído, quem sabe a distrair os outros, com todos estes pensamentos e a observar as provas de mar do Atlântida, o célebre navio recentemente construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, destinado aos Açores, mas que ninguem quer, porque os negociadores quiseram foi esbanjar dinheiro, nosso. Talvez pensassem à nascença que seria melhor entregá-lo a um qualquer destes modernos sucateiros que vão enriquecendo com faces ocultas.
Estava eu distraído com tudo isto quando ouvi:
"Olá meu Velho!"
Velho, eu?
Quem teria a ousadia de me chamar meu Velho?
Virei a cabeça para o lado e o que vi?
Um velho amigo envelhecido, porque nestas coisas do envelhecimento há novos velhos e velhos novos, o qual não via há muitos e longos anos, capazes de produzir velhice e ao mesmo tempo rejuvenescer muita gente.
A palavra Velho, fez-me recordar os velhos tempos que passei com este velho amigo, que não é nenhum velhaco.
Revivi velhas memórias, contamos velhas histórias, dos tempos imemoriais, sentados à mesa com um copo de tinto velho, envelhecido em qualquer casco de carvalho velho.
Velhos tempos em que as velhas amizades eram raramente velhaqueadas por serem sinceras e desinteressadas.
As velhas da altura eram as mães das miudas que nós tentavamos conquistar,
com velhos galanteios onde nem sonhavamos vir a atingir a velhice e a fazer parte da velhada que hoje é maltratada pela própria família.
- Então meu velho, Velho (este é o nome do meu velho amigo), que é feito de ti!
- Estamos velhos na idade, Melga!
- Velhos?, disse eu.Velhos são os trapos quando não nos servem! Eu espero ser mais velho por outros tantos anos. Vês este mar? Sempre rejuvenescido, é o retrato da mais pura e verdadeira velhice, tem milhões de anos de existência e não se cansa de subir e descer o areal milhares de vezes por dia...Quem me dera vir a ter a velhice deste imenso mar!


Texo produzido para a