terça-feira, 30 de março de 2010

Se eu pudesse...






Se eu Pudesse….


(adaptado pelo Melga, do poema com o mesmo nome (a itálico e negrito), de Fernando Pessoa ou antes Alberto Caeiro, para quem se dedica a estudar heterónimos)



Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Talvez hoje não estivesse
Aqui a lamuriar.
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
E para que queria ser mais feliz
Se a felicidade nada me diz?
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Porque ser natural na terra
É fazer bem e esperar mal!



Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
E molha-nos até ao tutano,
Em qualquer estação do ano!
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha,
Que haja maldade ou bondade
Quando vamos na enxurrada,
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…
Que haja tanta traição
Saída do coração!



O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Como se nada se passasse
De mentira ou de verdade.
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
Calar como quem vê,
Sorrir como quem sofre!
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja…
Porque a morte tudo leva,
Da ostentação à inveja!

 
Nothing else matters